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| Foto via Stocksnap.io |
Sou dessas pessoas que começa um novo ano cheia de gás e esperança de que dessa vez vai ser diferente. E não quero entrar no mérito de quão verdadeiro isso pode ser, entre outras discussões sobre isso (não é momento para filosofarmos). Mas o que quero dizer aqui é que naquele ano uma parte de mim estava extremamente empolgada por estar fazendo algo novo, mas a outra parte ainda tentava encontrar respostas e se sentia completamente perdida e esgotada em relação a certas coisas da vida. Era como um misto de otimismo de que as coisas vão ser melhores com aquele pessimismo que vem quando a gente decide se conformar que, como diria a Vanessa da Mata, é só isso e não tem mais jeito.
Talvez a parte mais dolorosa de toda essa história era que eu tinha perdido o prazer em algo que antes era uma espécie de força motora para mim. De alguma maneira, aquilo ali me impulsionava a sonhar, a fazer planos, a querer ser cada vez melhor. Mas então as coisas ficaram meio nebulosas e a relação foi se desgastando e afetando alguns campos da minha vida. E foi nesse momento, enquanto tentava esconder as olheiras com maquiagem, a noite de choro com um sorriso na frente dos amigos e a ansiedade com o meu jeitinho mais na minha, que conheci ele.
Sabe aquelas pessoas que parecem trazer o sol junto de si? Que tem um sorriso tão contagiante? E que te transmite uma paz tão grande que nem se quer passa na sua cabeça que ali dentro daquele universo pode estar acontecendo uma revolução e estar tudo bem bagunçado? Então, esse é o jeito que encontrei de descrever ele.
Estando tão acostumada com caras que sempre são tão grosseiros ou tem segundas intenções, eu confesso, fiquei um pouco surpresa e sem saber como lidar quando, durante quase um mês, ele se sentava próximo a mim e me olhava tão atentamente enquanto falava – mesmo que fosse sobre algo que ele não entendesse ou sobre uma banda que amo, mas ele não suporta. Ele parecia querer me estudar, entender até as coisas que não ousava dizer. O menino dos olhos brilhantes me mostrava que com ele não havia relações superficiais; era para se aprofundar no outro mesmo ou não valia a pena. E demorei, mas me acostumei com isso. Na verdade, passei a gostar, porque certamente era o que mais me chamava atenção nele, o que mais gostava.
Os meses foram se passando e acho que não estávamos próximos apenas nos assentos, mas também por dentro. Aos poucos fomos nos permitindo a entrada de um no universo do outro; compartilhamos experiências, segredos, expectativas, receios, amigos e até mesmo as coisas de diferente que aconteciam em nossa rotina; conhecemos a família um do outro – e não sei quanto a ele, mas me senti tão bem em meio aos iguais a ele (essa luz e paz eram de berço); e quase pegamos a estrada juntos, certa vez. Passamos por épocas em que estávamos muito próximos e sempre dando um jeitinho pra gente se ver, nem que fosse no final da tarde do sábado quando a gente terminasse aquele compromisso; mas também tiveram uns momentos em que tudo parecia contribuir para a nossa distância.
Não sei se felizmente ou infelizmente, mas nós tivemos dias meio contados. Os planos dele eram muito maiores que os meus (o que eu esperava, principalmente vindo de alguém que tinha conhecido tanto do mundo e das culturas e das pessoas) e acabaram nos afastando. Ele não sumiu da minha vida, mas hoje temos quilômetros, sonhos, obrigações, lições e trabalhos que nos distanciam. Ficou a proximidade de dentro, sumiu a dos assentos.
Mas me utilizando das palavras da garota daquele livro que nós dois lemos, vou dizer que ele não imagina o tamanho da minha gratidão por esses dias. Tive a certeza disso quando ele deu as costas para mim e seguiu em direção ao seu carro, na nossa última despedida. O meu coração se apertava em saber que o assento do lado estaria vazio, assim como o canto do parque que a gente gostava de sentar para conversar sobre coisas sérias e as bobas também; que não teria mais aquela esperança de que após uma semana pesada o encontraria no sábado à tarde; não escutaria o seu sonoro e alegre bom dia ou as canções que cantarolava até conseguir deixa-las grudadas na minha mente também; e nem receberia seus olhares atenciosos e abraços com poderes comparados ao de um calmante vendido na farmácia. Mas apesar de tudo isso, uma parte de mim torcia para que ele pudesse encontrar outra pessoa para resgatar de lá, do final do poço, assim como ele fez comigo.



